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Duas Bolas Em Campo


Dizem que atrapalha. Mas, ao contrário do que as leis teimam em impor,
a malta acha que se deve entrar sempre com... duas bolas em campo.

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03/10/08

Uma questão de distâncias*


No passado fim-de-semana fiz pela primeira vez o trajecto a pé entre o Estádio de Alvalade e o Estádio da Luz. São cerca de três quilómetros. Tendo em conta que os fiz na companhia três claques ditas “organizadas”, foram aquilo que se pode chamar de um “belo passeio de sábado à tarde”. Não aconteceu nada de especial, a não ser uns arrufos (habituais nestas coisas) entre adeptos contrários pelo caminho e à chegada. Ainda assim, esses 3km e o espectáculo do futebol passavam bem sem esse outro espectáculo que é o do ódio inexplicável, aparentemente motivado por um simples jogo com uma bola de couro e 11 jogadores de cada lado.

Ora, no sábado, Benfica e Sporting encontraram-se pela enésima vez, o que quer dizer que não houve qualquer distância entre eles… Mentira! Houve. Pelo menos em golos, houve. Mas não só.

No Sporting, acima de tudo, pereceu haver uma distância considerável entre o «peito aberto» proclamado por Paulo Bento na antevisão ao jogo para motivar a equipa e o que, de facto, se passou em campo. Os leões não foram uma má equipa mas, a espaços, como que se encolheram o suficiente para que o Benfica chegasse sempre com mais perigo à baliza de Rui Patrício do que os seus avançados chegavam à de Quim.

O que se viu foi que o discurso motivacional de Paulo Bento acabou por não resultar… no sentido que queria. Mas resultou noutro. Motivou… os jogadores adversários.

Nisto, Quique Flores foi exemplar. Falou depois de Bento e teve a hipótese de ripostar. À questão de o treinador do Sporting nunca ter perdido na Luz (que o levava a rumar ao dérbi de «peito aberto»), o técnico encarnado respondeu dizendo que preferia o caminho da humildade e que as estatísticas existiam para serem contrariadas. No final do jogo, o discurso dos jogadores do Benfica passava todo por aí, dando conta da primeira derrota do treinador verde e branco na Luz e do romper com aquela estatística em particular.

Contas feitas, a distância pontual entre Sporting (até ali vitorioso) e Benfica (que ainda não tinha convencido) diminuiu de quatro para um ponto. O Porto também aproveitou para se aproximar e, quando o dragão for a Alvalade, ver-se-á se a primeira derrota dos leões no campeonato não degenera também na segunda.

No final do jogo de sábado, questionado sobre isso, Paulo Bento disse que ainda havia uma distância de oito dias até esse clássico. Mas essa distância também diminuiu. Faltam agora dois dias.



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* Crónica publicada simultaneamente, a 3 de Outubro de 2008, no jornal


Remate de Marco António @ 22:42
Boladas sobre Crónicas
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06/09/08

Podemos viver sem um "Clássico"?*

Por favor, não responda já. Pode ser que concorde ou discorde da minha opinião. Ainda assim, pode responder de imediato, se quiser, claro.

Eu penso que não. Não podemos viver sem aquilo a que normalmente se chama de “Clássicos”.

Esta semana tivemos o primeiro… da Liga. Já tínhamos tido um na SuperTaça… e ainda outro na pré-época (no Torneio do Guadiana). Já estamos de barriga cheia quanto a “Clássicos”?... Não. Só à conta de Porto, Sporting e Benfica teremos mais dois na 1ª volta do campeonato, mais três na 2ª e mais um número indeterminado deles (pode ir de zero até… não faço ideia) se os grandes se encontrarem na Taça de Portugal e na Taça da Liga. Isto, caso não se encontrem também – que raio… mais vale pensar logo em grande! – nas competições europeias.

Aí, já teremos a barriguinha cheia?... Não!

A “fome” de emoção na bola é tal (na nossa muitas vezes pobre realidade futebolística) que a definição de “Clássico” é cada vez mais alargada e, por isso, atribuída a mais jogos, mesmo que não tenham, à partida, “estatuto” de “Clássico”.

Esta semana, logo após o Benfica – Porto, ouvi que na segunda-feira Braga e Sporting jogavam mais um “Clássico”. É certo que arsenalistas e leões já andam pela primeira desde “sempre”, mas será que isso confere ao jogo o tal epíteto?

Isto acontece também (mais, ultimamente) com jogos em que intervenham clubes como Vitória de Setúbal, Belenenses, Vitória de Guimarães, Boavista (mesmo estando na segunda, pode jogar “Clássicos” na Taça), Académica,… ou até Barreirense ou Atlético. Por exemplo, chamar “Clássico” a um Guimarães – Setúbal (sem desprimor para qualquer um dos clubes), como ouvi na antevisão à partida inaugural da Liga, perece-me forçado e denota que se tenta mascarar a recorrente pobreza dos espectáculos com “rótulos” que induzam expectativa no público.

E quando “Clássico” não serve, há-de servir “Derby” (Paços de Ferreira – Trofense, “derby do Douro Litoral”… Enfim…), “Tira-Teimas” (na 2ª volta, o FCP – SLB vai acumular “Clássico” com “Tira-Teimas”, devido ao empate de há dias), ou outra qualquer expressão que faça com que o adepto já vá para o estádio com os nervos em franja. Depois não admira que haja diabos de barba a entrarem em campo para bater nos árbitros. Quando era miúdo, lembro-me disso no “derby” lá da minha zona, o Sourense – Norte e Soure (que, na altura, também era um “clássico” das Distritais). Era cá uma pilha de nervos!… e os bandeirinhas bem o sabiam.




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* Crónica publicada simultaneamente, a 5 de Setembro de 2008, no jornal


Remate de Marco António @ 23:29
Boladas sobre Crónicas
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08/08/08

Peço desculpa mas… Nada de Pré’s *


Sei perfeitamente que, pelos critérios de relevância jornalística, esta crónica deveria versar sobre a pré-época dos clubes de futebol. Não versa. O “Discurso Directo” não gostará certamente que eu diga isto mas se o leitor esperava que o texto versasse sobre a pré-temporada, talvez o melhor seja deixar de o ler agora. Há outras coisas boas para ler neste jornal.

Nunca gostei das pré-temporadas. Nem dos defesos, nem das mil e uma pseudo-contratações de que se fala sempre (e que depois só dão em meia dúzia delas, na verdade)… Enfim… com o mau futebol que se pratica em Julho e Agosto a “ajudar à festa”, acho mesmo que há coisas mais importantes sobre que falar nesta altura.

Os Jogos Olímpicos começam hoje. No meio das polémicas inerentes a uma escolha extremamente dúbia feita pelo Comité Olímpico Internacional na atribuição da organização do evento à China – “exemplo” de liberdade e respeito pelos Direitos Humanos (deve ter sido pela “familiaridade” da designação “Comité”) –, penso haver algo muito mais relevante a destacar.

Lá, vai competir uma larga comitiva de atletas portugueses (80) que pouca gente conhece em Portugal, que não ganham balúrdios e que são grandes desportistas… sempre, mesmo quando injustamente são apontados como fracos, ao não conseguirem medalhas. Chegar a um pódio de apenas três lugares, sozinho, é uma verdadeira proeza. Questiono-me sempre por que raio praticamente só se idolatra jogadores de futebol (que nem semopre jogam bem e sozinhos nunca serão ninguém) e os atletas olímpicos só lhes chegam aos “calcanhares” quando ganham o ouro (e isso nem sempre é garantido).

Arrisco ainda a “roer” mais esta “corda” e a destacar outros excelentes atletas que vão competir em Pequim. Depois dos Olímpicos, entra em acção a Missão Portuguesa aos Jogos Paralímpicos. São 33 super-atletas que superam as duríssimas adversidades que a vida lhes criou e ainda ganham medalhas para Portugal, com um sorriso no rosto, mesmo que esses (garantidamente) ninguém os reconheça na rua por cá. Sabia que nas últimas seis edições dos Jogos Paralímpicos foram conquistadas 81 medalhas para Portugal, 25 delas de ouro?

Perante isto, por que razão deveria a crónica versar sobre a pré-época da bola… se não se passa nada de realmente importante?

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* Crónica publicada simultaneamente, a 8 de Agosto de 2008, no jornal


Remate de Marco António @ 00:01
Boladas sobre Crónicas
0 % de posse de bola

11/07/08

O (Desporto-)Rei vai nu!


Confesso ter sempre alguma dificuldade (e pouco gosto, de resto) em abordar temas relacionados com aquilo a que se chama de "casos" no futebol português. Muito embora nutra algum apreço pessoal por coisas bizarras em geral, no caso particular das bizarrias que se passam ao abrigo do "desporto-rei", a coisa já não me dá grande gozo e acabo sempre por achar tudo muito parvo (peço desculpa pelo calão).

Depois de tudo o que já vimos e ouvimos ao longo dos anos, o que se passou há uma semana na sede da Federação Portuguesa de Futebol [FPF] deu para perceber que dificilmente existem limites para o absurdo a que se pode chegar no futebol nacional. Por um lado – convenhamos – até é estimulante e divertido saber que o bizarro não conhece fronteiras nem restrições. Por um lado – convenhamos – até é estimulante e divertido saber isso. Por outro, é difícil não temer o que significa a possibilidade de, por exemplo, serem tomadas decisões cruciais para o futuro do nosso futebol numa reunião em que os membros de um Conselho de Justiça [CJ] se tratam quase "à batatada" (de novo, peço desculpa…), se insultam e se tentam afastar mutuamente da reunião, não escondendo haver intenção de defender ou prejudicar deliberadamente os interesses dos clubes envolvidos no Apito Final. Dizer que isto é mau… é pouco. Para "ajudar" à festa, os juristas da nossa praça (e a praça deve ser grande – apareceram imensos a falar disto) também têm opiniões diametralmente contraditórias sobre todo o imbróglio que se criou com a lamentável reunião do CJ da FPF.

Feitas as contas, o (atrevo-me a dizer estranho) sorteio da 1ªLiga aconteceu com o Boavista (dado como despromovido pelas instancias desportivas) a surgir entre os "grandes" (com um asterisco por todos indesejado, que aqui significa muito mais que um sinal gráfico), a bandeira do Paços de Ferreira a ser roubada à porta da Alfândega do Porto por um tipo com um braço engessado (que, na hora, não pareceu nada diminuído fisicamente) e com a próxima época a poder começar tão ou mais atribulada quanto a de há dois anos, com o "Caso Mateus"… que ainda nem sequer está resolvido nos tribunais administrativos – o mesmo pode acontecer agora, caso (como se espera) Porto e Boavista recorram das decisões do CJ para a justiça civil, arrastando tudo no tempo. Demonstra-se uma vez mais que o "rei" (que tanta gente idolatra em Portugal) vai nu e sem vergonha da má imagem que isso traz a algo que não deveria ser mais que um simples desporto.

Vá… se calhar, não vai totalmente nu. Deve ir "vestido" com um asterisco ou algo do género.

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* Crónica publicada simultaneamente, a 11 de Julho de 2008, no jornal


Remate de Marco António @ 11:47
Boladas sobre Crónicas, FPF, Polémicas
0 % de posse de bola

12/06/08

Portugal em trânsito
(apesar da crise nos combustíveis)*


Portugal vai estar nos quartos de final do Euro2008.

Antes de tudo mais, parece-me bem. Qualquer outra coisa que não a garantia de qualificação era capaz de dar ainda mais cabo do actual estado do país. Assim, o facto de não haver combustíveis até pode ajudar o povo a estar mais próximo da selecção, já que não tarda nem se vai poder sair de casa; e estando-se em casa vê-se a bola, claro. Não vejo melhor pretexto para ficarmos todos pregados aos ecrãs até – espera-se – 29 de Junho, a apoiar a selecção nacional.

Entretanto, já se sabe que Abramovic abriu (de novo) os cordões à bolsa e leva Scolari para o Chelsea. Ronaldo continua a ser bem mais do que simplesmente cobiçado pelo Real Madrid (serei só eu a achar estranhíssimo todo o processo de paixão entre os “merengues” e o jogador português?). Moutinho tem agora mais mercado do que nunca. Postiga assinou pelo Sporting no dia da partida para a Suíça e Quaresma já antes fez saber que deseja estar de malas aviadas para fora do FCPorto (embora 40 milhões sejam sempre difíceis de dar; Abramovic… quem sabe…).**

Apetece-me, por isso, dizer que esta selecção está “em trânsito”. Tanto no Europeu, onde tem jogado bem e convencido (algo pouco habitual, se nos lembrarmos da fase de qualificação, por exemplo), como nos percursos profissionais dos seus atletas (parece que toda a gente só está bem onde não está, parafraseando António Variações). Tudo isto pode ser bom e mau. A montra que o Campeonato da Europa é motiva os jogadores a jogarem mais e melhor mas a cabeça a pensar em contratos nunca ajudou trabalhador algum a labutar de forma eficiente.

Espero que nada disto interfira (demasiado) no caminho iniciado por Portugal no Europeu da Suíça e da Áustria, obviamente. Para já, o destino é o St.Jakob de Basileia e não Stamoford Bridge, Santiago Bernabéu, Alvalade, Nou Camp, Old Trafford ou qualquer outro estádio. Ah! E depois, se possível, será o Ernst Appel, de Viena. A jogar bem, de forma competente e madura, pode pensar-se em coisas boas.

Espero que a “febre” da caneta para pôr coisas “preto no branco” não venha a deitar tudo a perder.


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* Crónica publicada simultaneamente, a 13 de Junho de 2008, no jornal


** A actualidade obriga-me a dizer que, já depois da realização desta crónica, Deco poderá ter assinado contrato com o Chelsea (Abramovic está definitivamente um mãos largas!... que novidade...). No caso do "20" luso-brasileiro a questão do "trânsito" ainda mais se coloca pois foi o único jogador sa selecção nacional a ser autorizado a chegar mais tarde (no dia seguinte, inclusivamente) à concentração após a folga desta quinta-feira.

Remate de Marco António @ 22:36
Boladas sobre Crónicas, Euro2008, Mercado, Selecção
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16/05/08

Scolari:
Sem “RoManiche” e com
meia equipa a crescer*


Há cerca de seis anos, a 7 de Maio de 2002, Luiz Felipe Scolari tornou-se (praticamente “da noite para o dia”) conhecido em todo o Mundo ao deixar um senhor chamado Romário fora da convocatória da selecção brasileira para o Mundial da Coreia e do Japão. A coisa (como se diz no Brasil) ficou “preta” para o “Felipão”. Houve manifestações populares, até o Presidente da República tentou demover o treinador e toda uma nação encarou reticente uma competição que acabou por ganhar. Scolari provou que tinha razão.

Estamos em 2008 e o técnico fez a sua terceira grande convocatória ao serviço da selecção portuguesa. Maniche – um dos esteios das “quinas” no Euro 2004 e no Mundial 2006 – ficou de fora. Não houve nem consta que venha a haver manifestações nas ruas… e Cavaco Silva não parece que venha a meter-se nos assuntos da selecção.

No entanto, mesmo com seis anos de diferença, a ideia que Scolari passa para jogadores e adeptos é precisamente a mesma: ele leva quem quer e não quem eventualmente possa pensar que está “garantido” na equipa ou que seja da preferência do povo. É nestas horas que Scolari (o amigo que defende os sues jogadores até à morte, como ele próprio garante) se torna “Felipão”, o “sargentão” que leva sempre a dele avante, normalmente com resultados para mostrar. O Brasil foi campeão do mundo em 2002, Portugal vice-campeão da Europa em 2004 e 4º no Mundial há dois anos atrás. O resto, poder-se-á dizer, é só “conversa”.

Desta vez, para a Suíça e para a Áustria, Scolari leva mais avançados e menos médios do que seria de esperar. Mais defesas direitos do que esquerdos (curioso é que Jorge Ribeiro, irmão de Maniche, é o único lateral esquerdo de raiz a ser convocado – uma espécie de prenda de consolação para a família). Há onze estreantes em grandes fases finais e diz-se que há juventude a mais e “capitães” a menos para dar voz de comando em campo. Mas uma coisa é certa. Com a “subtileza” que é deixar de fora um dos símbolos de senioridade e capacidade de “combate” da equipa, “Felipão” só está a dizer uma coisa aos 23 eleitos: quem precisar de crescer, que cresça já, porque vai ser precisa gente “grande” para lutar.


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* Crónica publicada simultaneamente, a 16 de Maio de 2008, no jornal


Remate de Marco António @ 00:01
Boladas sobre Crónicas, Selecção
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